Não basta ser violentada pelo companheiro, àquele que fez juras de amor e cuidado diante de Deus e dos homens. É preciso ser agredida também por uma sociedade doentia, que questiona e toca a ferida da vítima quando, na verdade, os questionamentos deveriam ser direcionados ao autor do crime.
O caso que repercute em meio à sociedade paraibana, desde o último sábado (24), não fala apenas da médica e influenciadora digital Raphaella Brilhante, mas reflete a realidade vivida por muitas mulheres brasileiras que são violentadas e escolhem denunciar o agressor.
“Deveria ter saído do relacionamento”, “mas por que ainda ficou com ele?”, “ah!, amanhã já vai estar com ele novamente igual a fulano e sicrano”. Expor agressão carrega com si o julgamento da sociedade, que deveria acolher a vítima. Desde ontem (24), diversos perfis nas redes sociais que noticiaram o fato têm feito julgamentos, muitos deles por homens, mas o mais chocante: julgamentos feitos por outras mulheres. Empatia e sororidade se tornaram apenas discurso bonito na boca de alguns – sem generalizações, óbvio.
Se de um lado a sociedade toca a ferida da vítima, julga, compara e aponta o dedo na cara com questionamentos e afirmações que não caberiam para o momento. Do outro, a vítima sente a dor de ser duplamente agredida.
É muito raso julgar pelo que é noticiado na grande mídia porque só a vítima é capaz de saber o que, de fato, viveu, passou, sentiu e vai sentir sempre! Isso mesmo, sempre! Porque a agressão física acabou, mas a violência carimba a pele e a mente da mulher que segue sendo vítima de um sistema que busca julgar a mulher ao invés de questionar o agressor. E por falar em agressor, cadê ele? Ainda não foi preso? Será que mais uma vez vamos assistir um agressor se safar? Será que o dinheiro vai ser suficiente?
Às vezes, a vergonha, o medo, a invalidação, as ameaças que veem acompanhada das agressões – porque sim, toda violência vem acompanhada de ameaças -, a dependência emocional e tantos outros fatores levam milhares de mulheres a silenciarem.
Raphaella não foi a primeira e – infelizmente, diante de homens que acreditam que suas mulheres são objetos e de uma sociedade tão segura do “direito de julgar a vítima” -, não será a última a sofrer violência, mas uma coisa é certa: escolher denunciar e tornar público o caso vivido pela médica e influenciadora digital acarretou a ela julgamentos e, consequentemente, deve estar proporcionando também mais dor e, talvez, este seja mais um dos muitos motivos pelos quais tantas mulheres escolhem silenciar a agressão…